Dicionário - Verbetes

ATIVIDADE (DOCENTE)

Autor: DAISY CUNHA

A ergonomia analisa o trabalho nos meios profissionais, ligando condições materiais e organizacionais a partir do ponto de vista do trabalhador. O trabalho é atividade reguladora individual e coletiva que põe em marcha o sistema em seus acontecimentos aleatórios de todas as ordens, através das antecipações e gestões simultâneas de múltiplos horizontes temporais que se apresentam numa situação profissional. O objetivo é compreender como o trabalho é realizado, compreender seu movimento e tirar consequências para uma renovada concepção dos sistemas técnico-organizacionais e para a vida em comum. A atividade se interpõe entre o trabalho prescrito - definido antecipadamente pela organização, e o trabalho real - marcado por múltiplas variabilidades relativas ao processo de trabalho que não podem ser exaustivamente antecipadas. A ergonomia relaciona uma íntima compreensão do trabalho e a transformação do mesmo se apoiando sobre uma pluralidade de aportes disciplinares e conduzindo a intervenções cada vez mais singulares, impondo a necessidade de associar conhecimentos gerais produzidos nas mais diversas disciplinas sobre o trabalho humano e outros saberes coproduzidos com os trabalhadores em suas situações de trabalho. A ergologia que tem a ergonomia como uma propedêutica se coloca, desde o início, o lugar da atividade humana na sua interação com o meio técnico, social, historicamente construído, cultural. O trabalho é unidade problemática entre a atividade humana, as condições reais de trabalho e os resultados efetivos obtidos. De um lado, as situações de trabalho condensam as marcas da história humana. Por outro lado, as situações de trabalho trazem sempre a novidade das renormalizações impetradas pelos sujeitos do trabalho nos usos que eles fazem de si mesmos. E eles o fazem segundo suas próprias normas, seus valores e saberes, mesmo que em dimensões ínfimas e pouco visíveis. Falamos de produção e retrabalho dos saberes e valores contidos no trabalho prescrito em nível local, em função de exigências que são aquelas que se inscrevem nas diversas configurações das situações de trabalho. Quando pensamos a competência humana no exercício profissional, os ingredientes dessa competência desvelam dimensões na relação homem/meio de vida e trabalho. Esse encontro é, também, lugar do inesperado. A atividade de trabalho lida com o não padronizado na situação e reforça a contingência da mesma, ela é, também, um elemento de variabilidade na situação de trabalho na medida em que retrata o contingente a partir de sua experiência singular para lidar com os imprevistos do momento. Dois tipos de saberes que se apresentam nesse encontro: os saberes que estruturam as situações de trabalho e seu exercício a partir de conhecimentos fundados nos campos científicos que os conceituam, categorizam, codificam, normatizam e os saberes relacionados à experiência das situações de trabalho nas quais se encontra o trabalhador bem como aqueles saberes in-corporados durante o exercício da experiência profissional (gestos profissionais, a linguagem própria ao ofício, automatismos). Saberes relativos à experiência na situação na qual se encontra esse trabalhador e/ou em outras que o mesmo tenha vivenciado. Os saberes in-corporados são difíceis de serem verbalizados ou transmitidos, pois se forjam ao longo da formação do próprio trabalhador, são custosos em termos de aprendizagens e dificilmente dissociáveis do contexto em que se formaram. Inúmeras vezes, dificuldades em explicar o que sabemos fazer não significa ausência de regras implícitas, mesmo de atividade conceitual, de conhecimentos acompanhando nossos atos profissionais em situações específicas. Essa capacidade de atuar, ou, em alguns casos, tomar decisões intuitivas in situ, está ancorada em sínteses processadas pela atividade e baseia-se numa multiplicidade de elementos difíceis de serem explorados, ordenados, verbalizados. Baseadas em pontos de referência mais ou menos intuitivos como, por exemplo, antecipações do comportamento dos colegas e/ou das dinâmicas coletivas locais, são sínteses individuais e microcoletivas geralmente mal formalizadas e de difícil formalização. Representam síntese corporal obscura entre dimensões biológica, sensorial, psíquica, cultural, histórica de nossas vivências. Confrontados permanentemente à necessidade de decidir sobre a aplicação da regra aos casos particulares, desafiados a reajustar em permanência o codificado e as interfaces não codificadas e imprevisíveis da situação na qual nos inserimos, somos obrigados a arbitrar sobre a boa ação no bom momento. Caparros-Menacci (2003), Cunha (2005) e Alves (2009) identificam tal competência de Kairos em situações de ensino-aprendizagem quando o professor intervém no curso da reflexão de um aluno, interpelando-o para que avance em suas reflexões. A situação de trabalho na qual o educador se insere lhe exige o conhecimento próprio à sua formação profissional e, simultaneamente, adaptações, gesto, memória, atenção... numa complicada dinâmica na qual o aluno individual não pode se perder no coletivo. Esse trabalho demanda forte investimento pessoal para gerir o que se apresenta na organização do trabalho pedagógico da escola e da sala de aula. Investimento de si não sem custos à saúde. A relação com o saber, a vontade de conhecer melhor os parâmetros técnicos de sua profissão, a importância atribuída ao exercício profissional, marcam um engajamento subjetivo singular dos profissionais. Toda atividade pode ser analisada pelas normas produtivas dimensionadas na tarefa, entretanto, as atividades humanas agem também orientadas por valores sem dimensão (valores do bem comum, por exemplo). E agem numa relação com as normas de produção de um ponto de vista que é singular, pois construído nas vivências de trabalho e vida do trabalhador e nos projetos herdados de coletivos os quais integrou. O trabalho implica sinergias de saberes e valores entre essa individualidade e coletivos de dimensões variáveis presentes no espaço laboral. Produto de um debate de normas, a atividade se orienta por valores que mobiliza, mescla e cria saberes frente às demandas do meio histórico-cultural numa dialética complicada com o mesmo. A atividade interroga, constrange e deixa o pesquisador numa situação de desconforto intelectual, pois ela transgride, media e é atravessada por contradições singulares que não permitem generalizações, que somente nos permitem pensar de modo tendencial, uma vez que não podemos antecipar de modo definitivo as decisões que serão tomadas in-situ pela atividade no curso de sua relação com o meio. Nesse sentido, podemos falar de atividade como matriz de história, pois a vida se vive através de um corpo mergulhado em e estruturado por meio de normas, saberes técnicos, sociais e ético-políticos. Esse corpo trabalhador que é biológico, histórico, é psíquico...é cultural e se apresenta inteiro, atravessado por debate de normas nos microatos que se inscrevem entre o trabalho prescrito e o trabalho real: o ser é convocado nas configurações históricas das situações de trabalho. Se desejarmos nos debruçar sobre os meandros do trabalho docente, será preciso compreendê-lo no epicentro das políticas educacionais, pelo uso de si que fazem os docentes face às demandas do meio. A atividade docente, que processa permanentemente saberes e valores, numa dinâmica que embaça as fronteiras do trabalho e da vida, é o elo tenso entre as normas do viver em comum (politeia) e as articulações necessárias entre os vários tipos de saber (paideia) que atravessam o ato mesmo de educar, de aprender. Quando nos posicionamos assim, no coração do ofício de mestre, aparece o velho problema filosófico de uma articulação entre os problemas do formar o homem e do viver em comum(Schwartz, 2000: 59). Nesse cruzamento, encontramos a crise de ofício de mestre, mas também os elementos para resolver parte dos impasses que permeiam o ato de educar na contemporaneidade, pois uma qualidade da educação vem sendo construída nas batalhas do trabalho real dos educadores. Será preciso frequentar as dramáticas da atividade docente para compreender o engendramento de novas configurações históricas.

BIBLIOGRAFIA:

ALVES, W. F. A formação contínua e a batalha do trabalho real: um estudo a partir dos professores da escola pública de Ensino Médio. 2009. Tese (Doutorado) – Universidade de São Paulo, Faculdade de Educação, São Paulo.

CAPARROS-MENCACCI, N. Pour une intelligibilité de situations de confrontation à um problème dans l’enseignement e la formation universitaire professionnalisante. 2003. Tese (Doutorado) - Université Aix Marseille, Provence.

CUNHA, D. La formation humaine entre le concept et l’expérience du travail: éléments pour une pédagogie de l’activité. 2005. Tese (Doutorado) - Université de Provence, Provence

SCHWARTZ, Y. Le paradigme ergologique ou un métier de philosophe. Toulose: Octarès, 2000.

 

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