Dicionário - Verbetes

MEMORIAL DE FORMAÇÃO

Autor: MARIA DA CONCEIÇÃO PASSEGGI

Texto acadêmico autobiográfico no qual se analisa de forma crítica e reflexiva a formação intelectual e profissional, explicitando o papel que as pessoas, fatos e acontecimentos mencionados exerceram sobre si. Adota-se a hipótese de que nesse trabalho de reflexão autobiográfica, a pessoa distancia-se de si mesma e toma consciência de saberes, crenças e valores, construídos ao longo de sua trajetória. Nesse exercício, ela se apropria da historicidade de suas aprendizagens (trajeto) e da consciência histórica de si mesma em devir (projeto). Convém lembrar que o retorno sobre si também conduz a pessoa a se ver como os outros a veem. E isso implica contradições, crises, rejeições, desejos de reconhecimento, dilemas...

O memorial como escrita de si é primeiramente uma ação de linguagem. Se a escrita não pode modificar os fatos vividos, ela pode modificar sua interpretação. Ao simbolizá-los de outra maneira, modificamos a consciência que temos dos fatos, de nós mesmos e de nossa ação no mundo. Para Bakhtin/Volochinov (1985, p. 118), a escrita  exerce um efeito reversivo sobre a atividade mental: ela põe-se então a estruturar a vida interior, a dar-lhe uma expressão ainda mais definida e mais estável. Essa ação reversível da expressão bem formada sobre a atividade mental (isto é, a expressão interior) tem uma importância enorme que deve ser considerada. É nesse sentido que a escrita de si é formadora, promovendo a aprendizagem biográfica: conhecimentos que emanam da reflexão sobre a experiência vivida, e a reinvenção de si: transformação das representações de si mesmo mediante a vida ressignificada.

Desde os anos 1990, muitas instituições de ensino superior, no Brasil, adotaram o memorial de formação como prática pedagógica e como documento de avaliação com diversas finalidades, entre as quais a da seleção de candidatos à pós-graduação. Enquanto prática pedagógica, o memorial de formação tem uma dupla função: a de dispositivo de formação e de instrumento de avaliação. Sua dupla face – formativa e avaliativa - é potencialmente enriquecedora, desde que nenhuma delas se sobreponha a outra. Se as autobiografias trazem a suspeita de ficção literária e permitem livre curso à imaginação, o narrador do memorial preocupa-se com a objetividade da escrita e engaja-se com a autenticidade da história que assina como autor(a).

Quando o memorial é elaborado durante a formação inicial ou continuada, é importante que o exercício de autorreflexão, conduzido durante a escrita, se realize num espaço de partilha, garantido pela instituição, e em grupos reflexivos, formados por pessoas que vivenciam juntas o processo de escrita de si, e que um mediador experiente acompanhe o grupo e facilite seu acesso a um referencial teórico pertinente. Passeggi (2008a), ao descrever a mediação biográfica, sugere que os posicionamentos de quem narra e de quem acompanha evoluem durante o processo, conforme evolui a apropriação da escrita de si por quem escreve. 

No que concerne ao conteúdo, as grandes linhas do memorial de formação são sugeridas, de acordo com suas finalidades, pelas instituições que o adotam. Todavia a pessoa que escreve decide evidenciar ou neutralizar fatos que irão constituir as diferentes partes do memorial. Quanto à estrutura, pode-se optar, ou não, por uma ordem cronológica; organizá-lo em função de fatos relacionados a atividades de formação; explicitar contextos e relações interpessoais, etc. para pôr em foco a experiência e expectativas relacionadas à atuação docente. No que concerne ao processo de avaliação, o memorial pode, ou não, ser objeto de defesa diante de uma banca examinadora.

Quanto aos seus aspectos formais, observam-se critérios de parametrização semelhantes aos das monografias. Avalia-se, no memorial, não a vida de quem narra, mas sua capacidade para selecionar e analisar os eventos significativos: Que fatos marcaram minha vida? O que eles fizeram comigo? O que faço agora com o que isso me fez? Observam-se ainda: o bom ou o mau uso dos conceitos da área de conhecimento do(a) autor(a), as referências teórico-metodológicas e didático-experienciais orientadoras da reflexão; o modo como contextualiza suas afinidades com a profissão, seus questionamentos, como compreende e identifica as lacunas, dá coerência às descontinuidades, tira lições das inflexões e se projeta em devir.

O memorial de formação, a partir dos anos 1990, tornou-se uma prática usual na formação docente, impulsionada, para alguns, pelas correntes reflexivas. De fato, o prestígio do memorial enquanto tradição universitária brasileira, datada dos anos 1930 (cf. PASSEGGI; CÂMARA, 2008), é o que parece ainda hoje servir de garantia e de inspiração para os memoriais de formação, tanto como inovação pedagógica, quanto como documento de avaliação em diversas situações de seleção. Se ele é adotado, inicialmente, no quadro da formação de professores em serviço, fora dos cursos regulares da academia, hoje, o seu uso se consolidou como trabalho final de graduação, em boa parte das universidades brasileiras.

Do ponto de vista etimológico, o memorial (séc. XIV), do latim tardio memoriale, is, designa “aquilo que faz lembrar”: um monumento (Arquitetura), um livro de anotações (Contabilidade), um relatório (Direito), um “relato concernente a fatos ou indivíduos memoráveis” (Literatura, História). O Dicionário Houaiss (2001) não faz referência ao memorial como texto acadêmico. No entanto, proliferam múltiplas designações: memorial de formação escolar, de formação social, memorial formativo, descritivo, reflexivo, acadêmico, etc. Passeggi (2008a) propõe o termo memorial autobiográfico para demarcar o seu uso como trabalho acadêmico e sugere distinguir duas grandes modalidades. O memorial acadêmico: escrito por professores e pesquisadores para fins de ingresso na carreira docente, ascensão funcional e/ou constituição da memória institucional. E o memorial de formação, aqui descrito.

Essas narrativas autorreferenciais constituem fontes de investigação pertinentes às representações da condição e do trabalho docente em diferentes épocas, em diversas modalidades de ensino, em várias regiões do Brasil. Narrar é uma prática humana, mas fazê-lo, refletindo sobre o que se fez dentro de modelos escritos para atender a uma esfera cultural, é algo que se adquire na relação com seus membros.

O êxito da escrita do memorial autobiográfico se realiza quando se explora seu potencial formativo, deixando-se envolver por uma reflexão ética sobre o percurso intelectual e o encantamento estético de se fazer do memorial uma arte formadora de si mesma enquanto profissional.

BIBLIOGRAFIA:

BAKHTIN, M.; VOLOCHINÓV, V. N. Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: Hucitec, 1985.

CÂMARA, S.; PASSEGGI, M. C. Memorial autobiográfico: investigando sua gênese. In: PASSEGGI, M. C.; BARBOSA, T. M. N. (Org.) Memórias, memoriais: pesquisa e formação docente. Natal: EDUFRN, 2008. p. 93-115.

HOUAISS, A. Dicionário eletrônico Houaiss de língua portuguesa 2.0. São Paulo: Objetiva,  2007. CD-Rom.

PASSEGGI, M. C. Mediação biográfica: figuras antropológicas do narrador e do formador. In: PASSEGGI, M. C.; BARBOSA, T. M. N. (Org.). Memórias, memoriais: pesquisa e formação docente. São Paulo: Paulus, 2008. p. 43-59.

PASSEGGI, M. C. Memoriais: injunção institucional e sedução autobiográfica. In: PASSEGGI, M. C.; SOUZA, E. C. (Org.). (Auto)Biografia: formação, territórios e saberes. São Paulo: Paulus, 2008a. p. 103-132.

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