Dicionário - Verbetes

MEMÓRIA DOCENTE

Autor: ROSA MARÍA TORRES HERNÁNDEZ

A memória, no seu sentido mais corriqueiro, refere-se à capacidade de recordar. A memória não se restringe à recuperação do passado vivido ou imaginado. Na rememoração, esse passado é impelido pelo presente em função das expectativas de futuro. Abrange, aliás, a fixação do “tempo vivido” e as funções do esquecimento (JELIN, 2002; ARÓSTEGUI, 2004). “Esquecer algo; é deslocar o olhar retrospectivo e recompor, assim, uma paisagem diferente do passado” (ROUSSO, 2002, p. 88).

Os homens recordam nas relações sociais; o fazem em grupos, instituições e culturas. Mais ainda, a memória individual é uma parte da memória do grupo, nunca se rememora sozinho. A rememoração de um sujeito supõe marcos ou quadros sociais (família, religião e classe social). Esses marcos estão carregados de representações gerais da sociedade, são visões de mundo que alentam os valores do grupo. “Em outras palavras, (…) as mesmas representações em ocasiões parecem ser lembranças e às vezes noções ou ideias gerais” (HALBWACHS, 2004, p. 336).

Na dimensão coletiva da memória, localiza-se a ligação de memórias individuais entretecidas, nunca por adição, porque tais ligações se expressam no pertencimento dos sujeitos a uma multiplicidade de grupos que, por sua vez, são âmbitos de identificação coletiva e individual (RICOUER, 2004). A memória coletiva é uma acumulação das representações do passado que se produz, elabora e transmite na interação dos seus membros (JEDLOWSKI, 2001). Não é só cronológica, sua busca não se concentra no tempo real, mas envolve as vivências afetivas, os componentes latentes e manifestos e as imagens conectadas ao tempo presente.

A memória docente localiza-se na complexa rede de relações descrita, essa rede determina o que se esquece ou se lembra, para quem e para que; esta é a base a partir da qual os professores se vinculam uns com os outros. A identidade e a memória dos docentes, como representações construtivas da realidade, estão unidas. “O fazer memória” sustenta a identidade, é pela lembrança que se conserva nos grupos ou nas gerações um sentido de igualdade através do tempo e do espaço.

Existem dois tipos de memória: as habituais e as narrativas. Estas últimas são as que interessam para compreender a memória docente, nelas se distinguem duas formas: a memória biográfica e a memória institucional.

A narrativa biográfica permite ao docente produzir representações e compreender as relações imaginárias que mantêm os indivíduos em suas relações concretas, estabelece-se assim uma “identidade reflexiva” e não imediata com a sociedade, relacionando-se criticamente com o passado ao tomar distância das normas transmitidas. (REMEDI, 2004).

Na memória biográfica, consideram-se as histórias de vida, os relatos e as autobiografias (BOLIVAR, 2001), é a busca do tempo passado, “é uma mistura complexa de elementos heteróclitos [em que advertimos], deslizamentos e condensações entre elementos culturais, sociais, econômicos (ligados ao contexto social e familiar) e elementos emocionais, afetivos, racionais (ligados ao funcionamento psíquico consciente e inconsciente)”. (GAULEJAC, 2005, p. 103).

O estudo da vida dos professores é uma tentativa de “gerar uma contracultura” se oponha à tendência de devolver os professores às sombras, escutando sua voz. Estas investigações aportam descobrimentos que dizem respeito aos movimentos de reestruturação curricular, às reformas educativas e à compreensão da profissão docente (GOODSON, 2004). Da mesma maneira, os relatos de experiências pedagógicas convocam a memória docente para que transite dos registros fragmentários e esquecidos do passado à documentação dos saberes dos docentes compartilhando trajetórias, mundos, preocupações, etc. entre colegas (SUÁREZ, 2007).

A memória biográfica é também um dispositivo para a formação ou autoformação dos professores, ressalta o valor da narrativa do docente para favorecer a aprendizagem e localizar o professor em uma prática subjetiva e intersubjetiva do processo de formação. O trabalho com as narrações biográficas conforma um processo de conhecimento: de si, dos processos formativos e das aprendizagens que se constroem ao longo da vida. (JASSO, 1999; SOUZA, 2006).

Agrega-se ao já dito que As histórias de vida e A memória docente ocupam um lugar privilegiado na memória institucional, as instituições são lugares onde se desdobra umsaber-fazer e uma experiência. Trabalhar com a memória institucional implica em recolher os vestígios do passado recuperando assim as memórias coletivas que definem as identidades sociais, é por isso que se apela à memória dos professores – entre outros agentes – para analisar de que maneira se entrelaçam acontecimentos laborais, assuntos de poder, vínculos libidinais individuais e grupais.

A memória dos professores aporta elementos para revisar e pensar a relação entre memória e utopia que tem lugar na instituição, sob a visão crítica da historia. Os docentes são portadores de uma memória-repetição e de uma memória reconstrução que articula passado, presente e futuro. Assuntos malogrados no passado podem nutrir as expectativas e lançar novamente a consciência histórica em direção ao futuro sem fixação no passado que rumina as grandezas perdidas e as humilhações sofridas

BIBLIOGRAFIA:

ARÓSTEGUI SANCHEZ, J. Memoria, memoria histórica e historiografía: precisión conceptual y uso por el historiador. Revista de Historia Contemporánea, Alicante, n. 3, p. 5-58, 2004.

BOLÍVAR, A. et al. La investigación biográfico-narrativa en educación: enfoque y metodología. Madrid: La Muralla, 2001.

GAUJELAC, V. Historias de vida: entre sociología y psicoanálisis. In: GAUJELAC, V.; RODRÍGUEZ, S.; TARACENA, E. Historias de vida: psicoanálisis y sociología clínica. México: Universidad Autónoma de Querétaro, 2005.

GOODSON, I. (Ed.) Historias de vida del profesorado. Madrid: Octaedro, 2004.

HALBWACHS, M. Los marcos sociales de la memoria. Barcelona: Anthropos, 2004.

JASSO, M.-C. Historia de vida e projecto: a história de vida como projeto e as “histórias de vida” a serviço de projetos. Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 25, n. 2, p. 11-23, jul-dez, 1999. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_ arttext&pid=S1517-97021999000200002&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 17 jan. 2009.

JEDLOWSKI, P. Memory and sociology: theoris and issues. Time and Society, Thousand Oaks, v. 10. n. 1, p. 29-44, 2001.

JELIN, E. Los trabajos de la memoria. Madrid: Siglo XXI, 2002.

REMEDI, E. (Cord.) Instituciones educativas. México: Plaza y Valdes, 2004.

RICOUER, P. La memoria, la historia, el olvido. México: Fondo de Cultura Económica, 2004.

ROUSSO, H. El estatuto del olvido. In: ACADEMIA UNIVERSAL DE LAS CULTURAS. ¿Por qué recordar?Buenos Aires: Granica, 2002. p. 87-89.

SOUZA, E. C. O conhecimiento de si: estágio e narrativas de formação de professores. Río de Janeiro: DP&A, 2006.

SUAREZ, Daniel. Docentes, narrativas e idagaciones pedagógicas del mundo escolar. e-Eccleston, Buenos Aires, Ano 3, n. 7, p. 1-30, oto./inv. 2007. Disponível em: <http://ieseccleston.buenosaires.edu.ar/suarez.pdf.>. Acesso em: 5 jun. 2009.

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